Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis.
Bertolt Brecht (1898-1956)Escritor e dramaturgo alemão. Adere desde muito cedo ao expressionismo e vê-se obrigado a fugir da Alemanha em 1933, após escrever a Lenda do Soldado Morto, obra pacifista que provoca a sua perseguição pelos nazis. Ao iniciar-se a Segunda Guerra Mundial começa uma longa peregrinação por diversos países. Em 1947, perseguido pelo seu comunismo militante, vai para os Estados Unidos. A partir de 1949, e até à sua morte, dirige na Alemanha Oriental uma companhia teatral chamada do Berliner Ensemble.
Bertolt Brecht é, além de dramaturgo, um importante teórico teatral. Nos seus Estudos sobre Teatro expõe a sua concepção cénica, baseada na necessidade de estabelecer uma distância entre o espectador e os personagens, a fim de que o ponto de vista crítico do autor desperte no espectador uma tomada de consciência. Destaca-se também na poesia, de forte conteúdo social.
“Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha de Senhor K., seriam eles mais amáveis para com os peixinhos?”
Como se nota, Brecht viveu em épocas conturbadas da história. Presenciou e comentou a 1ª Guerra Mundial em “Alemanha, loura e pálida / De nuvens selvagens e fronte suave! / Que aconteceu em teus céus silenciosos? / Agora és o lixo da Europa”. Exilou-se em meio à ascensão do nazismo, descrito em “Agora que preparam uma nova Grande Guerra / Resolvidos a superar inclusive as barbaridades da última / Eles matam ou expulsam gente como eu / Que denuncia seus golpes”. Por fim, também viu a 2ª Guerra Mundial: “A cidade natal, como a encontrarei ainda? Seguindo os enxames de bombardeiros, volto para casa. Mas onde está ela?”.

Brecht era o reflexo desta época, e a resposta ácida a ela. Fazia alusão ao fascismo em diversas obras, como em Terror e miséria do Terceiro Reich, Mãe Coragem e Seus Filhos e comparava Hitler a um pintor de paredes. Com muita influência do comunismo, embora desgostasse de Stálin, era um intelectual defendendo, acima de tudo, a liberdade e a distribuição de riqueza. Não era daqueles que apoiava um autoritarismo como forma de combater outro autoritarismo.
”Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.”

Autor de textos fortes, que deixam bem claro suas intenções, escreveu uma das minhas poesias favoritas, Aos que vão nascer. Leia um trecho a seguir. Para ler a poesia inteira click no lingue abaixo.
http://sistemadespido.wordpress.com/2008/12/18/tempos-sombrios/
“Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia”
Também escreveu um texto que é a pura evocação da consciência política. Chama-se O Analfabeto Político:
“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”
Em suma, Brecht denota uma eloquência escrita, mas com muito embasamento. Talvez por essas características, acaba sendo muito bem aceito por quem o lê. O que é bom, pois ele não só utilizava a arte como maneira de se posicionar, mas também assumindo um papel importantíssimo de chamar os demais à consciência, a qual ele esbanjava. Assim, Brecht conseguiu deixar um legado positivo: o de que juntos qualquer realidade pode ser mudada, não importando qual déspota está no poder.
Eu, que nada mais amo
Do que a insatisfação com o que se pode mudar
Nada mais detesto
Do que a profunda insatisfação com o que não pode ser mudado.